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Terencio – Enfermeiro Chefe do Hospital de Dever

Muitos de vocês já me conhecem, meu nome é Amanda Silva Mansur, sou jornalista formada pela Universidade de Uberaba e atualmente vivo em Miami nos Estados Unidos como correspondente do Jornal de Patrocínio.

A minha intenção é escrever uma série de matérias sobre brasileiros que conquistaram uma vida profissional de sucesso nos Estados Unidos e mostrar o caminho que eles percorreram até aqui. Contar mesmo a trajetória de vida desses guerreiros que desbravaram não só o seu caminho numa terra desconhecida, como conquistaram o seu espaço, aprenderam outras línguas, e se tornaram completamente adaptados. Ganharam o respeito dos americanos sem perder a graciosidade o calor que o nosso povo tem como característica principal.

Por ironia do destino, estou aqui escrevendo essa matéria, dia 01 de Novembro de 2020, dia em que completa 1 mês do falecimento do meu pai (faleceu de COVID) contando sobre a vida e trajetória de Terencio Rodrigues Avila de Oliveira Franco Neto, Enfermeiro Chefe do Hospital de Denver no Colorado Swedish Medical Center.

Coincidência ou não, eu havia convidado Terencio há bastante tempo para me dar seu depoimento e fazer parte desse meu projeto junto ao Jornal de Patrocínio mas, o que eu não imaginava, era que meu pai viria a falecer por causa desse vírus. O que quero dizer é que está sendo uma honra entrevistar um profissional da saúde em meio a essa situação mundial tão atípica onde esses guerreiros fazem a diferença. Eles são os nossos verdadeiros anjos incorporados. A todos os médicos, enfermeiros, assistentes, aqui vai o meu grande respeito e gratidão.

Por causa desse vírus e da nossa situação atual que escolhi entrevistar em primeiro lugar um profissional da saúde para trazer aqui detalhes de como é a vida de alguém que se dedica a salvar vidas. Um caminho árduo, repleto de desafios, que só se percorre com muita dedicação, paciência, devoção, firmeza no propósito e muito amor genuíno.

Nascido no dia 08 de Junho de 1980 na Santa Casa de Misericórdia de Araxá, esse geminiano determinado veio ao mundo já numa situação que na época era considerada desfavorável: filho de mãe solteira numa sociedade bem conservadora. Criado pelos avós e a mãe, num terreno de muito amor, trabalho, responsabilidade e dedicação, Terencio recebeu tudo que necessitava para construir o futuro que sonhava. Sua mãe Rosane Avila de Oliveira, depois que ele nasceu, estudou, formou-se, trabalhou e o criou com a ajuda dos pais.

Amanda: Terencio, nós todos já sabemos que as nossas experiências da infância e a forma como somos ensinados podem afetar diretamente o nosso olhar com relação à vida e a forma como lhe damos com as adversidades e desafios. O que te marcou na sua infância que você acredita ter contribuído para conquistar o que conquistou hoje?

Terencio: Várias coisas me marcaram, eu tive uma infância muito rica de amor e atenção. Meus avós e minha mãe me cobriram de muito carinho mas tem uma coisa que marcou bastante, eu era uma criança bem ocupada. Por ser filho de mãe solteira, a minha mãe queria que eu vencesse, então eu fazia aula de tudo, extracurricular: eu tinha aula da escola, tinha particular das matérias que eu não ia bem, tinha aula de computação, aula de piano, datilografia, tênis. Então nas minhas férias eu passava meu tempo na fazenda aprendendo com o meu avô sobre organização e trabalho duro. Ele foi sem dúvida a minha maior fonte de inspiração. Isso foi determinante para eu saber duas coisas: só se vence com trabalho duro e organização. Meu avô tinha só até a quarta série e 12 irmãos. Venceu na vida por pura determinação. Ele tinha 1 mula que trocou em 2 cavalos e sempre disse: “Um dia terei 1 fazenda”. E teve duas fazendas.

Eu me espelhei e me espelho muito nele. Ele casou com 40 anos de idade e criou 6 filhos. Meu avô que foi minha figura masculina, foi quem me criou até os meus 15 anos quando o perdi. Mas eu tenho muitas memórias dessa época da minha vida. Ele tinha uma casinha na fazenda onde guardava as ferramentas, eu ficava ali observando a organização dele. Cada ferramenta tinha seu desenho na parede para ser pendurada no lugar certo, aquilo me marcou muito. Deu pra ver que ele venceu por causa de maneira de gostar da ordem.

E Foi nesse ninho que fui criado: católico, primeira comunhão, crisma.. Foi no colégio Sao Domingos fiz até a quarta serie, depois Dom Bosco que fiz até a 8 serie. Eu sempre pensei em ser médico, mas foi um caminho muito longo para eu chegar a trabalhar na area da saude. Depois que meu avô morreu eu decidi aprender o trabalho da fazenda e cuidar das coisas dele, o que não durou muito porque os planos da minha mãe eram outros. (risos)
Amanda: E o que aconteceu quando seu avô faleceu? Que rumo sua vida tomou?

Terencio: Fui criado em casa de avó Ivone Avila de Oliveira e muito privilegiado nesse sentido, ela é minha mãe tinham outros planos pra mim. Minha avó arrendou uma parte da fazenda e deixou a uma pequena área pra ela. Hoje em dia ela planta soja, tem a casa com o galinheiro, chiqueiro, etc, tem pomar de frutas e horta de verduras, etc, tudo que ela ama. Elas queriam muito que eu vencesse então decidimos que o melhor pra mim era fazer um intercâmbio. Tentamos pelo Rotary de Araxá. Recebi um não (risos), foi muito decepcionante o Rotary não tinha vagas pra mim. Mas eu não desisti, tentei o STB (Student Travel) IEF (International Exchange Form), tentei ir para o Canadá, Austrália, Inglaterra porque eu queria aperfeiçoar o Inglês, aprender mesmo a língua e finalmente depois de esperar muito consegui pelo STb de Ribeirão Preto. Mas o processo foi longo, então decidi ficar na fazenda até arrumarem uma família pra mim. E foi em agosto 1996 que eles me ligaram. Tinham conseguido uma família não muito tradicional de um cara chamado Joe Clay no estado do Colorado numa cidade chamada La Junta. Ele era policial da marinha americana. Solteiro. A cidade era bem pequena, tradicional… Fiquei muito emocionado, porque Colorado tinha muito cavalo, fazendas e era o que eu gostava, parecia ótimo (risos).

Isso foi numa quinta que recebi a notícia e eu tinha que sair domingo de viagem. Eu era tão do interior e sem noção, simples, que não tinha nem roupa de frio, uma inocência só. Minha avó me deu um suéter que eu ainda guardo até hoje. Era a única blusa de frio que eu tinha , imagina… pro frio do Colorado (risos). Arrumei tudo entrei num avião e fui para São Paulo eu, minha mãe e meu primo. A minha primeira parada foi em Nova Iorque, cheguei muito tenso, tudo novo e com aquele inglês que a gente aprende em escola mas que quando chega aqui nao serve pra nada (risada alta) daí já engatamos pro terceiro voo e fui para a cidade Colorado Springs, no Colorado.

Chegando lá fiquei fissurado com a beleza das montanhas, do lugar, com a minha conselheira que foi me buscar num carro azul, me lembro até hoje. Descemos as montanhas e chegamos numa cidade pequena de 8 mil habitantes e muito feia(risos). Fiquei muito decepcionado e com medo. Aquela beleza toda de montanhas florestas havia ficado pra trás. Minha conselheira me levou direto para o museu onde estava o Joe (que seria meu pai americano), a pessoa que ia me abrigar. Ele era muito branco , muito alto e muito gordo, voz grossa. Me levou pra casa, tínhamos viajado ao todo 36 horas estava exausto e confuso. Só sabia pedir água e comida.

Amanda: Você ao chegar na casa onde passaria os próximos 2 anos de sua vida sentiu arrependimento? Como foi a sua chegada na casa do Joe? Um homem desconhecido, que só falava inglês, com hábitos diferentes, como foi esse encontro?

Terêncio: Como ele era solteiro, a casa era muito suja e ele era um general de poucas palavras. A primeira coisa que ele me deu foi um livro de regras da casa: páginas e páginas de regras pra eu ler. Mas em contrapartida eu vi que ele tinha comprado roupa de cama nova pro meu quarto, sim, eu tinha um quarto só pra mim e a gente dividia o banheiro.

Nesse primeiro dia, eu estava exausto e muito confuso, então eu dormi feito um anjo. No dia seguinte, acordei, ele já havia feito meu café da manhã. Eu tomei e ele disse: “Vamos sair. Esteja pronto”. Ele me levou num Walmart e disse: escolhe uma bicicleta pois não sou como essas mães que levam os filhos pra todo lugar de carro nao. Você vai ter que se virar. Então compramos a bicicleta. Chegando em casa, ele me deu um mapa e me explicou como andar na cidade. Fiquei aterrorizado. Fui dormir chorando de medo de me perder, muito preocupado mesmo, no dia seguinte tinha escola e além de estar ansioso estava com medo de me perder e não chegar no primeiro dia de aula e de acordo com meu visto, eu tinha que comparecer ao primeiro dia. Passei a noite pensando nisso, que larguei tudo pra ir morar nesse lugar com esse homem esquisito. (risos)

Bom, acordei e fui pra escola de bicicleta e sim me perdi, desesperei, desci sentei na beirada da rua e chorei feito uma criança. Mas quando olhei pra trás, o Joe estava de carro apontando para direção de onde eu tinha que ir. Nesse dia eu vi que as coisas iam dar certo com o ele, que ele se preocupava comigo mas nao ia me dar o peixe de bandeja, ele iria me ensinar a pescar. Me emociono muito contando essa história porque depois que meu avô morreu, o Joe foi uma pessoa muito importante na minha vida.

Amanda: E o que mais vocês faziam juntos, como era a vida de estudante intercambista nesse lugar?

Terencio: Ele me levava ao museu que ele trabalhava, maravilhoso, cheio de obras indígenas, animais embalsamados, a história do lugar mesmo, a cultura indígena, etc.

Me aconselhava fazer parte do grupo de escoteiros ao qual ele passou a vida sendo parte, dizia que lá eu me tornaria um grande homem se fizesse e eu lógico que aceitei, pois estava alí para aprender e participar com a cabeça aberta. E realmente aprendi grandes coisas lá. Ser escoteiro mirim foi muito bom, fiz amigos pro resto da minha vida. Tínhamos muitos laboratórios juntos, a gente pintava, fazia roupa de índio, dançávamos as danças originais dos índios, aprendemos os instrumentos. Meu intercâmbio foi uma experiência única porque como foi numa cidade pequena eu não era apenas um número, eu andava de bike por toda a cidade e todos me conheciam. As mães dos escoteiros se tornaram minhas mães, elas me davam de tudo, me convidaram pra tudo.

Amanda: Bom, parece que você aproveitou muito seu high school laa, adquiriu muita experiência. Como eram seus hábitos, rotina?

Terencio: Sim demais, e o Joe foi o responsável por isso, eu mudei a vida dele e ele mudou a minha. Viajamos muito, ele me ensinou muito sobre a importância de trabalhar duro, conquistar minhas próprias coisas, ter privacidade, integridade, vencer na vida mesmo e levei isso comigo. Joe David Cay, era o nome dele, foi meu pai americano. Ele tinha 5 master degrees (formaturas), era uma pessoa muito educada. Muito duro por fora mas por dentro um coração gigante. Um homem de muitos valores. Foi muito difícil deixá-lo, mas tudo acaba né?! Meu tempo lá acabou quando me formei no high school.

Feliz por um lado pois aprendi a língua, fiz diversos amigos pra vida, aprendi a me virar, viajei bastante, curti muito e amadureci demais. Mas triste pelo outro pois queria ter ficado. Minha mãe foi pra minha formatura e eu voltei pro Brasil.

Amanda: Nossa não sabia que tinha voltado para o Brasil, achei que tivesse ficado até hoje. O que aconteceu? Como você foi parar nos Estados Unidos novamente?

Terencio: Amanda, os Estados Unidos é o país da oportunidade, você sabe disso, vive aqui e assiste isso. Eu não via por exemplo, essas oportunidades no Brasil, onde as pessoas trabalham a vida inteira muito duro e não sai do lugar. Eu voltei porque a responsabilidade me chamou e o programa tinha fim e naoo queria ficar ilegal no país. Aliás nunca fiquei.

Voltei, fiz Pitágoras em Belo Horizonte. Vi muita gente passando fome, morrendo sem assistência, foi triste ver isso em cidade grande, mas era a realidade. Só que de certa forma isso me incomodava de um jeito que eu não conseguia me enxergar vencendo a vida no Brasil. Bom, depois de tanto batalhar, estudava noite e dia porque eu queria ser médico, não estava nem tendo vida de tanto estudar, sendo sustentado 100% pela minha família (coisa que me incomodava profundamente), finalmente passei na Universidade Federal de Minas Gerais para engenharia civil, mas eu não quis fazer. Nada a ver comigo.

Continuei na tentativa de vestibular para medicina em vários lugares e não consegui, pois era muito concorrido. Então resolvi relaxar um pouco, dei aula de inglês, ajudei minha avó a cuidar da fazenda, procurei emprego e recebi vários nãos. Nada dava certo!!!

Por 4 anos tentei muito de tudo, 21 anos de idade, dependendo financeiramente da minha família, definitivamente essa era uma vida que eu não estava gostando de ter. Foi quando eu passei no vestibular para Fisioterapia no Paraná. Me mudei pra lá mas fiquei somente por dois meses porque recebi uma ligação do Joe, para me parabenizar por eu ter passado e foi por causa desta ligação que minha vida mudou tudo de novo.

Ele estava indignado de eu estar fazendo algo só por fazer e me convidou pra retornar e fazer Enfermagem para depois tentar Medicina. Eu aceitei na hora.

E ele cuidou de tudo, foi até a Universidade, pegou um documento chamado I-20 e se nomeou “responsável” (sponsor) para que eu voltasse aos Estados Unidos com visto de estudante. Aí Amanda, foi uma loucura!

Fui pro Rio de Janeiro de ônibus, naquela época era muito perigoso, eram 45 pessoas tentando esse visto de estudante. Fiquei numa fila enorme e das 45 pessoas eu fui um dos dois únicos que conseguiram o visto, a sorte estava mesmo comigo.

Bom aí veio a parte prática. A uma certa altura da vida eu conheci meu pai biológico. Homem culto, brasileiro, fala 5 línguas e ensina teologia, hoje com quase 80 anos. Construímos uma boa relação. Naquela época ele havia me dado uma câmera dessas caras, bem boa. Pois bem, vendi a câmera e comprei a passagem. Era única forma. Não aguentava mais depender de ninguém. Fui embora com a cara e a coragem, sem saber sequer como isso ia funcionar, o que me esperava, porque se soubesse do quanto iria ser difícil, não teria ido. Cheguei de volta nos Estados Unidos dia 13 de Abril de 2001, em La Junta, no Colorado, na casa do Joe. Nem acreditei.

Ele foi me buscar muito feliz e então comecei minha segunda jornada aqui.

Mal sabia que cheguei já devendo (risos) pois minha faculdade era simplesmente 4.500 dólares por semestre (risos) e minha carteira estava vazia.

De Abril até Agosto (que é quando inicia o ano letivo aqui), não tinha o que fazer e já tinha uma dívida a pagar e uma dívida mais alta que de todos porque não era cidadão americano.

Para não desistir comecei a trabalhar limpando casa e também de baby- sitter (Babá), tudo escondido porque como era estudante só poderia trabalhar dentro da minha área de estudo ou no campus e apenas parte do tempo.

Comecei também a trabalhar no museu, limpava como se fosse a capela sistina, limpava por partes, e recebia muitos elogios pois fazia com muito amor e carinho, adorava aquele lugar, e também porque nós brasileiros temos um jeito muito nosso de limpar.

Amanda: E como era a sua combinação com Joe nessa segunda fase da vida? Ele era seu responsável financeiro, no sentido que ele forneceu para a Universidade o seu status financeiro, garantindo que você poderia vir como estudante, ou, ele te ajudava a pagar algo?

Terêncio: Não, ele era meu sponsor, ou seja, se eu não pagasse ele era responsável por mim, mas eu pagava 100% dos meus estudos. Ele me dava casa pra morar e amor, amizade, instrução, companheirismo. O resto tinha que me virar. Joe não era casado, então todas as mães dos escoteiros mirins se tornaram minhas mães. Economizava todo o dinheiro para pagar a faculdade e elas me davam comida, costuravam minha roupa, me levavam pra passear, me convidavam para almoços aos finais de semana.

Eu comia basicamente chicken pot pie (torta de frango) porque custava só 66 centavos e enchia muito e amava Doritos também (risos).

Nessa época estava com 21 anos de idade, não tinha nada, nem celular, nem carro, nem família. Só Joe e uma bicicleta. Me lembro bem da emoção que foi ganhar de presente de natal uma ligação para minha avó. Naquela época, não existia internet, uma ligação internacional era caríssima. As mães juntaram dinheiro e me deram isso de natal. Foi realmente muito emocionante.

(pausa, choro)

“Amanda, aiaiai essa entrevista tem mexido muito comigo, com minhas memórias, mexido de uma forma positiva, me lembrando o orgulho que tenho de toda a minha trajetória.”

Para o americano, não importa se você é branco, preto, japonês, chinês, brasileiro, ele quer saber se você é bom pra empresa ou não. Se você trabalha bem, se você se destaca e também se você não é uma sobrecarga para o sistema. E, se tem boas intenções, e se torna um membro produtivo para a sociedade, não está aqui para tirar vantagem dos outros e realmente colocou seu coração no lugar certo, você vai vencer, tem tudo pra vencer. Eles te dão todas as ferramentas, eles valorizam a nossa boa vontade.

Uma vez estava limpando um banheiro no museu, de joelhos no chão, esfregando com uma bucha e uma das mães dos escoteiros chegou e perguntou: Terencio o que você está fazendo? Eu disse: limpando. E ela: aqui não limpamos assim, passamos só um pano com produtos.

Então disse: mas é assim que aprendi no Brasil.

E ela: não, não, pare, vou resolver seu assunto agora!

Linda Root, era o nome dela, uma enfermeira que no dia seguinte conseguiu uma entrevista para mim num laboratório.

Fui com a cara e a coragem. Vesti a única camisa que tinha verde turquesa com uma calça cáqui e uma gravata. Cheguei lá e me apresentei como estudante internacional e pedi uma oportunidade. O cara surpreendentemente aceitou e disse: comece amanhã no laboratório tirando sangue. (Risos). Imagina, eu nunca tinha tirado sangue na vida.

O Hospital era dois quarteirões da minha casa, não tinha que dirigir, nem que se preocupar com distância. Eu me senti tremendamente lisonjeado: Amandaaaaaaa, imagine eu, sem falar inglês direito, tinha um medo de atender o telefone, com 21 anos, deixar de limpar os banheiros do museu para ir trabalhar num laboratório do Hospital Regional da cidade? Transbordei de alegria!

Amanda: E como foi sua experiência nesse hospital? Te deram boas condições de trabalho, mesmo sendo um “estagiário”, você sofreu alguma discriminação?

Terêncio: A experiência no hospital foi magnífica. Eu aprendi a tirar sangue rapidinho, tirava sangue de todos os setores do hospital e como sempre fui muito comunicativo, andava muito pelos setores conhecia todo mundo, trabalhava com tanta alegria e satisfação que todos eram meus amigos.

Além de tudo, me deu muita experiência com vocabulário, na linguagem médica, trabalhei muito na emergência do hospital. Foi sem dúvida uma experiência muito marcante e que escancarou as portas para as outras oportunidades que tive. Além do que, aprendi a lidar com as emoções, com sangue, com situações emergenciais, perigo, pânico, tristeza, morte, tudo que você pensar aprendi alí.

Amanda: E depois?

Terencio: Depois do laboratório, comecei a trabalhar com um patologista como secretário. Como eu havia feito informática no passado, fazia planilhas no Excel. Organizei a vida do meu patrão, Dr Holme. Também foi uma pessoa especial na minha vida! Ele sentiu tanta gratidão que organizei a vida dele que se uniu com outros médicos e eles deram uma bolsa de 1.000 dólares para pagar a faculdade.

Então fui vivendo dia após dia, aliás foi o que eu mais aprendi nessa minha vida: Não ter medo dos desafios, enfrentei todos que me propus, vivendo o presente, o dia após dia e sempre pude contar com a ajuda de todos. No final do trimestre sempre conseguia o dinheiro pra pagar minha universidade. Joe não me cobrava aluguel, mas tinha que arcar com minhas coisas pessoais como comida, roupa, etc.

Com muito sacrifício,dedicação, trabalho, estudo, e grandes amigos consegui pagar minha faculdade Otero Junior College de enfermagem e ainda recebi mérito de melhor estudante, era um estudante muito aplicado.

Me tornei também Presidente da Sociedade de Honra dos Estudantes Phi Theta Kappa, que também me trouxe muito aprendizado com a língua, conheci muita gente, fiquei mais próximo dos professores que mais tarde se tornaram meus mentores na vida. Me formei como assistente de enfermagem primeiro, trabalhei como tal, depois como enfermeiro.

Em hospital de cidade pequena se faz de tudo, não existe separação por setores e eu atendia de crianças a idosos em todas as áreas. O que foi muito rico pro meu currículo.

Mas um dia tive um susto. Já era enfermeiro quase formado, trabalhando na minha área, um sonho quase realizado, quando disseram que teria que ser deportado pois estava trabalhando ilegalmente no país. Isso me chocou imensamente. Me desesperei de um tanto… Porque não era verdade. Mas como sempre, Deus me acolheu e resolveu meu problema. O diretor do hospital, que já ouvira muitos elogios a meu respeito me chamou na sala dele e me explicou que com o visto de estudante não poderia trabalhar como funcionário, recebendo etc, etc. Então, mais que depressa disse: Me deixa trabalhar como voluntário? Trabalho de graça, só preciso da experiência, do ritmo, da vivência.

Então o diretor aceitou e ainda contratou um advogado de imigração para me defender. E tive que provar que estava legal, que tinha visto de estudante, e que estava trabalhando na minha área.

Daí eles me emitiram uma permissão de trabalho, mas essa permissão demorou 1 ano pra chegar e durante esse ano tive que trabalhar como voluntário. Trabalhei sem ganhar nada e pra me manter voltei a fazer dinheiro como babysitter, limpando casas.

O tempo passou, foi duro, mas consegui. Só que no dia de pagar o último semestre da faculdade, cheguei na secretaria apenas com 500 dólares no bolso, não tinha conseguido fazer toda grana que precisava. Estava com o coração completamente derrotado, achando que ia ser deportado, quando perguntei o quanto devia. A secretária respondeu que não devia nada. Que o último ano estava pago! O meu queixo caiu, não tinha ideia do que havia acontecido.

O hospital, porque fiz trabalho voluntário, foi lá e pagou a conta da universidade.

Continua na próxima edição do Jornal de Patrocínio

Por Amanda Mansur


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Amanda Mansur

2 Comentários

  1. Parabéns pela matéria, achei incrível e dou uma adepta de leituras sobre o tema em epígrafe.
    Só consegue as coisa aquele que não tem medo de tentar. Parabéns pela dedicação e coragem desse jovem e pela sua ,de estar aí, fora de sua zona de conforto, mas onde o sucesso acontece.
    Louca pra conhecer o restinho da história… Aguardo, carinhosamente…
    Tania Bragança

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